Curve-se para a dor

Este post introduz uma nova série, Vida Saudável.

Quando você começa a se exercitar pela primeira vez, é um pouco doloroso. Não absurdamente doloroso, como é ao encostar em água fervente, mas tanto que, se o seu único objetivo é evitar a dor, você certamente irá parar de fazê-lo. Mas se você continuar se  exercitando… bom, vai ficando cada vez mais doloroso. Quando você terminar, se você tiver pegado pesado, você se sentirá exausto e machucado. E quando você acordar no dia seguinte será ainda pior.

Se isso fosse tudo o que acontecesse, você provavelmente nunca se exercitaria. Não é divertido estar  machucado. Mas não fazemos isso, de qualquer forma – porque, nós sabemos, a longo prazo que a dor nos fará ficar mais fortes. Na próxima vez nós seremos capazes de correr mais, e levantar mais peso, antes que a dor comece.

E saber disso faz toda a diferença. De fato, nós começamos a ver a dor como um tipo de prazer – a sensação é muito boa quando realmente nos esforçamos, quando lutamos através da dor e nos tornamos mais fortes. Sinta queimar! É divertido acordar machucado na manhã seguinte, porque você sabe que esse é um sinal de que você está ficando mais forte.

Poucas pessoas percebem isso, mas a dor psicológica funciona da mesma maneira. A maioria das pessoas tratam a dor psicológica como encostar em água fervente – se começam a pensar sobre algo que as assustam ou as estressam, elas rapidamente param de pensar a respeito e mudam o assunto.

O problema é que os assuntos que são os mais dolorosos tendem a ser aqueles que são os mais importantes para gente: eles são os projetos que mais queremos fazer, os relacionamentos com os quais mais nos importamos, as decisões que terão as maiores consequências em nossos futuros, os maiores riscos que correremos. Nós estamos com medo deles porque nós sabemos que os preços são altos demais. Mas se nunca pensarmos sobre eles, então nunca poderemos fazer algo quanto a eles.

Ray Dalio escreve:

“É uma lei fundamental da natureza que para desenvolver algo você deve levar esse algo ao limite – o que é doloroso – para que ganhe força: seja levantando pesos, enfrentando problemas cara a cara, ou de qualquer outra maneira”
A natureza nos deu a dor como um aparelho de mensagens que nos conta quando estamos nos aproximando, ou quando nós excedemos, de nossos limites de alguma forma. Ao mesmo tempo, a natureza coloca como pré-requisito ficar mais forte à necessidade de nos forçarmos ao limite.

Ganhar força é o processo de adaptação do corpo e da mente ao encontrar o limite desse alguém, o que é doloroso. Em outra palavras, tanto dor quanto força resultam, tipicamente, do encontro com as barreiras desse alguém. Quando encontramos dor, estamos em uma importante conjuntura em nosso processo de tomada de decisão.

Sim, é doloroso, mas o truque é fazer aquela mudança mental. Mudança para perceber que a dor não é algo terrível e que deve ser adiada e evitada, mas um sinal de que você está ficando mais forte – algo para saborear e aproveitar. É o que faz você melhor.

Logo, quando você começar a notar algo que lhe causa dor psíquica, você ficará empolgado por causa disso, não com receio. “Ah! Outra chance para ficar mais forte!”. Você buscará coisas que te dão medo e intencionalmente as confrontará, porque é uma maneira fácil de conquistar o grande prêmio do auto-aperfeiçoamento. Dalio sugere que pensemos em cada um como um quebra-cabeças, dentro do qual existe uma linda jóia. Se você lutar através da dor para resolver o quebra-cabeça, você o libera e pode ficar com a jóia.

O truque é: quando você começar a sentir que aquela dor psicológica está vindo, não dê para trás e se encolha – se incline para isso. Incline-se para a dor.

Existe uma frase muito utilizada por aqueles que estão no processo de construção textual: Se dói, faça mais, repetidas vezes.

Por exemplo, imagine que João e Maria estão trabalhando em uma reportagem juntos. Os dois tem a pauta. João fica responsável pela coleta de dados, enquanto Maria buscará as fontes para as entrevistas. Os dois trabalham em suas tarefas durante dias e dias até finalmente terminarem. Agora eles enfrentam um problema: precisam juntar o material coletado numa coisa só.

Talvez você já tenha tido esse problema, seja com texto ou com alguma atividade: você envia o que tem para dois amigos, e daí eles sugerem diferentes mudanças, e você tem que pegar essas mudanças e junta-las ao texto original. É incrivelmente irritante. Então as pessoas deixam para lá. Maria pensa “sabe, só deixa eu conferir as entrevistas mais uma vez para saber se tá tudo certo”, e João pensa “sabe, deixa eu reescrever este parágrafo antes da gente juntar o material”.

Eles continuam evitando a junção do material, e cada vez que eles fazem isso, a tarefa vai ficando maior e mais dolorosa. Mas eles a terão que fazer, eventualmente. Até lá, os materiais de cada um estarão tão grandes que levará horas para juntá-los e então dar corpo para a reportagem. É um processo árduo e doloroso – o que faz com que João e Maria queiram deixar ainda mais para depois, da próxima vez.

A “Abordagem Ágil”, entretanto, propõe exatamente o contrário. Ao invés de juntar o material somente após a conclusão das operações, nós faremos isso a cada nova construção do texto. Seja isso a cada hora, ou a cada tantos minutos. Mesmo que João e Maria não estejam nem perto de fechar suas partes na matéria, eles checarão o que tem até então, juntarão, e assim não terão um inferno para montar depois. As pequenas junções tendem a não ser nada problemáticas. Elas são tão fáceis que você nem percebe.

Em todo o processo de desenvolvimento o mesmo princípio se apresenta: sua inclinação natural é de deixar de lado as coisas dolorosas, enquanto fazê-las mais frequentemente é, na verdade, muito mais fácil.

E eu não acredito que isso esteja limitado à produção textual. Eu penso que o mesmo princípio deve funcionar até mesmo se, por algum motivo, você seja chamado para ficar com a mão em água fervente por uma hora. Procrastinar e ficar ali em volta até que você não tenha nenhuma outra alternativa se não enfiar sua mão na água por uma hora inteira acaba sendo muito doloroso. Mas se você fizer isso de pouco em pouco, apenas rápidos toques com o dedo, isso eventualmente acabará somando uma hora, e o processo não será tão ruim assim.

De novo, o truque é não fugir da dor.

De todos os truques de auto-aperfeiçoamento que aprendi, este é o mais surpreendente – e, de longe, o mais impactante. Eu passei a maior parte da minha vida encurralado por meus talentos. Eu sabia que tinha pontos fortes e fracos e me parecia óbvio que eu deveria encontrar uma profissão que se encaixasse com meus pontos positivos. Seria loucura buscar uma profissão que sondaria minhas fraquezas.

Claro, havia coisas por aí nas quais eu gostaria de ser melhor, mas elas me pareciam tão longe. Enquanto isso, havia muitas coisas aqui nas quais eu era bom. Por que não simplesmente continuar por aqui? Claro, eu percebi, intelectualmente, que eu poderia ficar melhor em outras coisas, mas elas dificilmente pareciam valer a pena o esforço.

Eu aprendi a não me encolher diante de duras verdades, então eu, literalmente, tive esta conversa comigo mesmo: “Sim, eu sei: se eu ficar melhor em vender coisas para as pessoas (ou o que seja), eu seria muito melhor. Mas olhe o quão problemático eu acho vender! Apenas pensar sobre isso me faz querer correr e me esconder! Claro, seria ótimo seu eu pudesse fazê-lo, mas isso vale realmente a pena?”

Agora eu percebo que esse é um argumento falso: não é que a dor seja tão ruim que me faça fugir, é que a importância do assunto ativa uma reação de luta ou fuga no interior do meu cérebro de réptil. Se ao invés de pensar nisso como um assunto assustador a se evitar, eu pensar nisso como uma empolgante oportunidade para ficar melhor, então não é mais uma relação de custo-benefício: os dois lados são benéficos – eu me beneficio por me tornar um bom vendedor e me divirto por estar ficando bom em alguma coisa.

Faça isso algumas vezes e toda a sua percepção da vida começa a mudar. Não será mais um mundo assustador, te encurralando, mas um mundo lotado de objetivos para se perseguir.

Investir contra algo grande como isso é apavorante. É demais para começar por isso.  É sempre melhor começar devagar. Há algo que você tem evitado pensar a respeito? Pode ser qualquer coisa – dificuldade em um relacionamento, um problema no trabalho, algo na sua lista de coisas para fazer que você tem deixado para depois. Busque isso para sua mente – independente da dor que trará – a deixe por aí. Compreenda que pensar sobre isso é sofrível e se sinta bem por estar deixando a si mesmo fazê-lo, de qualquer maneira. Sinta isso se tornar menos doloroso enquanto você se esforça para continuar pensando a respeito. Vê? Você está ficando mais forte!

OK, descanse. Mas quando você estiver pronto, volte, e comece a pensar em coisas concretas que você pode fazer a respeito. Vê como não é tão assustador como você pensava? Vê como é bom poder fazer alguma coisa a respeito?

Na próxima vez que você começar a sentir essa sensação, a sensação de dor do fundo de sua cabeça que te diz para evitar o assunto – ignore. Incline-se a dor, ao invés.  Você ficará satisfeito se o fizer.